sábado, 12 de setembro de 2015

A SEMEADURA E O FRUTO

Rapidamente abandonando todo o interesse e a aversão a esse mundo, me concentro
E às vezes quando concentro em algum objeto durante a meditação
Seja a respiração, imagens visuais ou mesmo todo o universo
O corpo ou a mente desaparece e torno-me uno com a experiência e com o objeto
Mesmo que sejam as sensações, a mente, ou os objetos mentais

Mas mesmo todas as experiências juntas,
Ou mesmo estado de êxtase, consciência ou felicidade
Neles vejo claramente as três características da existência
Todos eles são mutantes, impermanentes, por isso insatisfatórios
Eles estão fora do controle voluntário, não são um eu, nem meus, nem meu eu

Vejo também que elas são fruto de muitas causas e condições
Que quando não me apego nem me identifico com coisa alguma
Nem com nenhuma experiência nem com nenhum estado
A concentração, a clareza mental e seus resultados avançam
E quando essas causas cessam também cessam a concentração e os estados
Seja quando surgem pensamentos ou seja mesmo quando
São desejos por permanecer nesses estados

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Celibato e Budismo Tântrico

Por S. S. Dalai Lama    
Extraído e traduzido do livro "The Power of Compassion". Perguntas e respostas ao Dalai Lama.
P.-¿ Exige-se o celibato para atingir a Iluminação?
R.-Penso que, em geral, não. Então você deve perguntar por que o próprio Buda se converteu em monge. Creio, do ponto de vista do "Viniya Sutra", que o principal propósito do celibato consiste em tratar de reduzir o desejo e o apego.
Do ponto de vista do Tantrayana, particularmente a mais alta Yoga Tantrayana, a energia, "secreções", ou o gozo especial é a fonte de energia utilizada para dissolver o nível grosseiro da consciência ou o nível grosseiro da energia. Através da experiência desse gozo especial, existe a possibilidade de que o nível grosseiro seja eventualmente dissolvido. Desse modo, as secreções são o fator chave para o gozo.
No Budismo Tibetano, especialmente se você observar a iconografia das divindades e seus consortes pode ver um montão de simbolismo muito explicitamente sexual que com frequência causa uma impressão equivocada. Neste caso o órgão sexual é utilizado, mas o movimento da energia é completamente controlado.
Nunca se deve deixar a energia sair. Esta energia deve ser controlada e direcionada para as outras partes do corpo. O que se requer do praticante de Tantra é desenvolver a capacidade para utilizar as faculdades próprias do gozo e da experiência estática que são especificamente geradas através do fluxo dos fluidos regenerativos dentro de seus próprios canais de energia. É crucial ter a capacidade de proteger a si mesmo do erro da emissão. Não se trata, justamente, de um ato de pura sexualidade ordinária.
E aqui podemos ver que existe uma classe de conexão especial com o celibato. Especialmente na prática do "Kalachakra Tantra", este preceito de proteger a si mesmo da emissão da energia é considerado muito importante. A literatura Kalachakra menciona três tipos de experiência gozosa.
-Uma é a experiência gozosa induzida pelo fluxo de energia;
-outra é a imutável experiência gozosa;
-e outra é a experiência gozosa mutável.
Para mim, quando Buda adotou o voto do celibato, nesse nível não explicou as razões que existiam por trás dessa regra ou disciplina. A explicação completa chega quando conhecemos o sistema Tantrayana. Talvez isto responda sua pergunta. Assim, acho que a resposta é: Sim e Não!
P.- E, a resposta que o senhor deu sobre a necessidade do celibato e o uso do gozo e a não emissão veio do ponto de vista do homem. Por que nunca se menciona o aspecto da mulher nestas práticas? O que uma mulher necessita fazer com sua energia para conseguir a Iluminação através do gozo?
R. Dalai Lama.- É a mesma técnica e o mesmo princípio. De acordo com alguns dos meus amigos indianos, os praticantes do Tantrayana Indiano também realizam a prática do Kundalini e Chandralini. Minha informação é que a mulher também tem alguma classe de energia, secreções. Portanto, é o mesmo método.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Uma das coisas que aprendi através desses anos de meditação
É que quando observamos que há um fenômeno
Em vez de identificar-se com ele
Ou de dizer ‘eu faço’, ‘eu estou’, ‘eu sou’...

Acontece algo maravilhosamente libertador:
Encontramos nossa eterna liberdade
Não existe mais ‘eu desejo’, ‘eu quero’, ‘eu não quero’
Nem ‘eu preciso’, ‘eu não consigo’, ‘eu não consigo parar’...

Existem apenas fenômenos que aparecem e desaparecem
E podemos segui-los ou não
A cada instante temos escolhas
E podemos decidir o que fazer com eles

Ou simplesmente deixá-los ir
E nos espaços vazios entre eles
Sentir o êxtase

Da verdadeira liberdade de tudo

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Tantra budista: Algumas Observações Introdutórias


Uma excelente exlicação introdutória sobre o tantra budista e suas diferenças quanto a outras formas de budismo e outros tantras. O texto é de S.S. Sakya Trizin, o chefe religioso da tradição Sakya, uma das quatro grandes escolas do budismo tibetano.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Tantra budista: Algumas Observações Introdutórias

Sua Santidade Sakya Trizin



Há uma confusão comum entre muitos não-budistas (e até mesmo entre certos Budistas) de que os Tantras são recentes e corruptas adições ao Ensinamento budista. Isto é falso. Os Tantras são ensinamentos genuínos do Senhor Buddha, e eles ocupam uma suprema posição dentro do quadro global da doutrina budista.
Alguma confusões sobre os Tantras se originam de sua natureza esotérica. Desde o tempo do Buddha, os Tantras sempre foram ensinados secreta e seletivamente. Para
o seu correto entendimento sempre requereram instruções orais de um qualificado
mestre; sem tal explicações eles podem ser entendidos facilmente de modo errado e prejudicial.
Para defender esta tradição eu sou impedido de discutir a maioria dos aspectos do Tantra aqui. Mas talvez seja permissível aqui dizer algumas coisas gerais sobre Tantra budista e sobre como está relacionado com os outros sistemas budistas e com o pensamento não-budista e sua prática. Eu me fundarei nos ensinos de nossa tradição como o
Rgyud sde spyi'i rnam gzhag (" Geral Sistema dos Tantras ") de Lobpon Sonam Tsemo.

O QUE É TANTRA?

Na tradição Tibetana, a palavra Tantra (rgyud) não raramente se refere a uma especial classe dos
ensinos de Buddha como o Kriya, Carya, Ioga e Anuttarayoga Tantras, e mais especificamente para a escrituras que contêm isto, como o Hevajratantra, o Kalacakratantra, e o Guhyasamajatantra. Mas ao contrário de seu uso em inglês, a palavra normalmente não se refere ao sistema inteiro de prática de Tantra e sua teoria. Para o doutrinal sistema de Tantra, o termo Mantrayana (Veículo do Mantra) e Vajrayana (Vajra " ou " Adamantino Veículo ") é usado.
Em seu sentido técnico a palavra Tantra quer dizer " quantidade contínua ". Em particular, Tantra se refere à própria mente da pessoa como Sabedoria não-dual (jnana); existe como uma quantidade contínua porque há uma continuação irrompível de mente desde um tempo sem princípio até o conseguimento de Buddhahood.
Além disso, esta quantidade contínua tem três aspectos ou fases; a quantidade contínua causal, a quantidade contínua envolvida em método aplicado, e a quantidade contínua resultante. Criaturas no ordinário cíclo de existência (samsara) são a " quantidade contínua " causal. Os que estão comprometidos com métodos de ganhar liberação constituem a " quantidade contínua envolvida no método ". E os que alcançaram a última realização espiritual, o Corpo de Sabedoria, é a " quantidade contínua " resultante.
A causal quantidade contínua é chamada assim porque lá existe o potencial de produzir um fruto que não é ainda de fato manifestado. Está como uma semente detida um recipiente. Método " é chamado assim porque lá existe meios ou métodos pelos quais o resultado oculto na causa pode ser tido. Método " é como a água e fertilizante para cultivar uma planta. " Fruto " ou " resultado " se refere ao efetivo resultado que estava oculto na causa. Isto está como a flor amadurecida que resultou de plantar a semente e corretamente cultivar a planta.

O LUGAR DO TANTRA NOS ENSINAMENTOS BUDISTAS

Em sua compaixão infinita, por sua sabedoria e poder, concedeu o Buddha
inumeráveis diferentes ensinos que apontaram a ajudar os seres de incontáveis mentalidades diferentes. Estes ensinos podem ser classificados em duas classes principais: 1) o Sravakayana (que inclui o presente Theravada), e 2) o Mahayana. O Sravakayana (às vezes também chamado Hinayana) é principalmente apontado para a salvação individual da qual o Mahayana acentua o ideal universal do Bodhisattva (" o ser que intenta a Iluminação "), que se esforça abnegadamente para a liberação de todos os seres, jurando permanecer em existência cíclica até que os outros sejam liberados. O Mahayana ou Grande Veículo também pode ser dividido em dois: 1) o Paramitayana (Veículo " de " Perfeição) o qual nós também chamamos de o " Causal Veículo " porque nisto as perfeições morais do Bodhisattva são cultivadas como causas de futuro Buddhahood, e 2) o Mantrayana (Veículo " de " Mantra) com o qual também é conhecido o " Resultante Veículo " porque por sua especial prática a pessoa percebe a Sabedoria de Esclarecimento como de fato presente.

O FRUTO ESPIRITUAL A SER ATINGIDO POR TANTRA

O fruto espiritual que é apontado em ambas as sub-divisões de prática de Mahayana é o Perfeito Despertar ou Esclarecimento de Buddhahood. Um Buddha Perfeitamente despertado é aquele que entendeu o estado de todas as coisas conhecíveis corretamente em última realidade, que possui felicidade consumada, que é livre das impurezas, e que eliminou todas as manchas das ofuscações. A característica posterior - a liberdade das ofuscações - é uma causa para outras características de Buddhahood. Consiste na eliminação de três tipos de ofuscações ou impedimentos: essas corrupções como ódio e desejo, que obscurecem a pessoa e seu conhecimento da realidade, e em sua multiplicidade.

O CAMINHO QUE CONDUZ AO FRUTO

Nós falamos de um método de prática espiritual como um " caminho " porque são meios pelos quais se alcança o destino espiritual apontado. Há dois tipos de caminho. A pessoa pode seguir dos caminhos comuns que conduzem a resultados inferiores, ou o caminho extraordinário que leva para a meta mais alta.

CAMINHOS INFERIORES


Algumas religiões ou tradições filosóficas, enquanto reivindicam render bons
resultados, na verdade conduzem os seus praticantes para destinos indesejáveis. Por exemplo, os inferiores Tirthikas (não-budistas, escolas indianas) como também os que só propõem Niilismo, conduzem os seus seguidores para renascimentos nos reinos miseráveis de existência. Os Tirthikas mais altos podem conduzir a pessoa para a aquisição de um renascimento nos reinos mais altos, mas não para a liberação. E até mesmo os caminhos de Sravakayana e Pratyekabuddhayana são inferiores, porque só conduzem a simples liberação, e não a completa Buddhahood [Budhitude].

O CAMINHO ESPECIAL

O caminho especial é o Mahayana. É superior a ambos os caminhos não-budistas
e budistas, pois é o meio pelo qual Buddhahood perfeita pode ser atingida. É
superior a todos os outros caminhos por quatro razões particulares. É um meio melhor para remover o sofrimento, está sem apego à existência cíclica, como um método de liberação é o veículo de Buddhahood, e não deseja só liberação para o caminho da existência e quietude, mas igualmente são ensinadas vacuidade e compaixão como sendo non-duais.

AS DIVISÕES DO MAHAYANA

O próprio Mahayana tem duas divisões principais. Como mencionado acima, estas são o Veículo da Perfeição e o Veículo Segredo-Mantra. O primeiro destes também é limitado ao Mahayana em geral, porque está de acordo com o comum a ambas as divisões de Mahayana, considerando-se que o segundo é o melhor, porque suas doutrinas profundas e vastas especiais não são achadas na geral tradição. Os dois veículos derivam seus nomes das práticas predominantes neles.
No Veículo de Perfeição as práticas das perfeições do Bodhisattva (paramita) predominam, e no Segredo-Mantra Veículo há as práticas de mantra e relacionadas
meditações, como as duas fases de Criação e Conclusão, visualizando-se a Mandala e a Deidade, o mantra e sua recitação, e vários segredos e iogas profundas.
Uma diferença essencial entre as duas abordagens de Mahayana pode ser
explicada pelo modo da sua aproximação dos objetos sensórios que são a base para ambas: a cíclica existência e também para o Nirvana. No Veículo de Perfeição, a pessoa tenta banir as cinco classes de objetos sensórios completamente. A pessoa contém primeiro fisicamente a si mesmo, e também verbalmente, quanto aos objetos de desejo dos sentidos, e então por textos e argumentação a pessoa aprende aproximadamente a sua natureza. Depois, por realização meditativa, a pessoa remove todo apego. Isto é terminado no nível de superfície por meditação, que cultiva o antídoto às corrupções, como [exemplo] cultivando amor como antídoto para o enfurecer-se, e uma visão do caráter repulsivo dos objetos do sentido como o antídoto para o desejo. E no último nível a pessoa remove o apego da pessoa por entender e meditar que percebe que todos estes objetos são na realidade sem qualquer ego-natureza independente.
Também no Veículo de Mantra a pessoa começa contendo a si mesmo exteriormente (a base essencial pela qual a conduta da pessoa é a moralidade do Pratimoksa e Bodhisattva), mas na sua atitude no que se refere aos sentidos a pessoa não tenta eliminá-los diretamente. Alguns são [eliminados], é claro, que tais desejos sensoriais só podem agir como acorrentamento, e por isso impede a liberação da pessoa, e devem ser eliminados. Embora isto seja verdade para o usual indivíduo para quem faltam métodos hábeis, para o praticante que possui habilidade significa diferentemente, pois esses mesmos objetos dos sentidos se constituem numa ajuda no conseguimento de liberação. É como fogo que quando fora de controle pode causar grande dano, mas que, quando usado corretamente e habilmente é de muito benéfico. Enquanto para as escolas inferiores os objetos dos sentidos surgem como os inimigos da prática religiosa, aqui eles surgem como seus professores. Além disso, os objetos de sentido não agem como acorrentamento de suas naturezas, mas são os pensamentos conceituais errôneos baseado neles que as acorrentam.

A SUPERIORIDADE DE VAJRAYANA SOBRE PARAMITAYANA

O Veículo Segredo-Mantra é superior ao Veículo de Perfeição por vários
pontos de vista, mas sua superioridade principalmente é a sua maior eficácia e habilidade de seus métodos. Pelo Mantrayana, uma pessoa de faculdades superiores pode atingir Despertar dentro uma única vida. Uma pessoa de faculdades medianas pode atingir Despertar no período depois da morte (bardo). E uma pessoa de faculdades inferiores que observam os compromissos atingirá esclarecimento dentro de sete a dezesseis vidas. Estes são períodos muito mais curtos que o três
"imensusáveis aeons" requeridos pelas práticas de Paramitayana. Mas, embora o Veículo de Mantra seja assim superior em hábeis métodos, sua visão da última realidade é idêntica à visão de Madhyamika do geral Mahayana. Para ambas as escolas a última realidade é destituída de todo discursivo desenvolvimento ou elaborações. Uma visão não pode ser mais alta que outra desde que " mais alto " e " mais baixo " são desenvolvimentos discursivos ou conceitualizações.

PREPARAÇÕES E CONDIÇÕES PRÉVIAS PARA PRÁTICA DE TANTRA

O antecedente foi uma introdução geral a algumas das idéias de base de
Tantra budista. A real pergunta é como aplicar estas considerações teóricas dentro de um útil modo para quem as pratique. A prática de Mantrayana exige estudo detalhado de sua filosofia e requer em primeiro lugar uma iniciação especial de um mestre qualificado.

IMPORTÂNCIA DO GURU

A pessoa tem que buscar cuidadosamente a escolha de um Guru que tenha todas as qualificações e ensine o Tantra. Por exemplo, ele deve ter recebido todas as iniciações necessárias e explicações de um Professor qualificado, feito o retiro, e aprendido todos os rituais, mudras, desenhos de Mandalas, etc. Ele também deve ter recebido sinais de realizações espirituais. Também é mesmo importante achar um Guru com quem a pessoa tenha uma conexão através de karma. Em todo caso é imperativo achar um Guru, e a pessoa não deve fazer nenhuma prática sem um professor, especialmente dentro do Vajrayana. Não se pode adquirir resultado estudando um texto, somente. O Tantra diz que o Guru é a raiz e fonte de todos os siddhis e de toda a realização.

QUALIDADES DO DISCÍPULO

Antes da pessoa possa ser iniciada vai ser examinada primeiro pelo professor que vai averiguar se ela é um receptáculo de ajuste para os ensinos. As qualidades principais requeridas são: fé, compaixão e Bodhicitta (o desejo de Esclarecimento). Uma autorização principal nunca é dada para os que não desenvolveram Bodhicitta em um grau mais alto. Deste modo ambos, o estudante e o professor, têm que examinar-se um ao outro cuidadosamente.

IMPORTÂNCIA DA TRANSMISSÃO

Quando o Guru certo é achado, a pessoa deve pedir-lhe então a iniciação e explicações.
Em Vajrayana é necessário receber o Wangkur (Autorização ou Iniciação), a transmissão ou permissão para praticar o Tantra, sem qual não se pode praticar qualquer coisa. A transmissão é particularmente importante em Vajrayana e o Lama (Guru) assegura a continuidade de uma linha de transmissão direta por uma sucessão de professores. Esta linha de transmissão foi irrompível desde que o Senhor Sakyamuni Buddha pôs em movimento a Roda de Dharma. Não só tem que haver esta linha de Transmissão, mas também deve ser uma linha de prática que mantenha a linhagem viva.

VOTOS E PRÁTICA

Depois de a pessoa ser conduzida na mandala gloriosa pelo mestre, a pessoa começa a prática, observando os vários votos e compromissos do Vajrayana cuidadosamente. Estes votos são principalmente mentais, e podem ser até mesmo mais difíceis que os do Pratimoksa e de Sistemas de Bodhisattva. A pessoa também tem que dedicar a si mesmo ao estudo adicional, e para praticar visualizações especiais e yogas de acordo com as instruções do mestre.

TANTRA BUDISTA E HINDU

Tantra budista é assim distinto das outras atividades de Mahayana por seu especial método. Porém, é idêntico ao Mahayana Madhyamika dentro de seu último
objetivo, e é igual a todas as escolas de Mahayana que assim consideram sua meta e motivação. O Tantra hindu, em contraste, tem base filosófica e motivação diferentes, embora compartilhe alguns pontos da mesma metodologia prática. Algumas pessoas devem ter pensado que o Tantra budista não deve pertencer ao puro Budismo porque compartilha muitos elementos de prática do Hinduísmo. Este raciocínio é enganoso porque certos métodos ligados são compartilhados por diferentes tradições religiosas. Suponhamos que tivéssemos de abandonar cada e todo elemento da prática compartilhada com as tradições hindus. Neste caso, nós teríamos que deixar a generosidade, a moralidade, e muito mais!
Há muitas diferenças adicionais, claro, entre Tantra budista e hinduísta nas práticas meditativas, e assim sucessivamente. Mas eu não tentarei explicar aqui por meu próprio limitado conhecimento. Aqui será bastante acentuar que a escola Vajrayana budista pressupõe a tomada de refúgio no Buddha, Dharma e Sangha (e o Guru como a incorporação desses três), a compreensão de Vacuidade (sunyata), e o cultivo de amor, compaixão e Bodhicitta (o pensamento de Esclarecimento). E eu devo novamente sublinhar a importância da Bodhicitta que é a resolução firme para atingir Buddhahood perfeita para beneficiar a todas as criaturas sensíveis, pelas pessoas de grande desejo, [pensando] que eles estejam felizes e livres de tristeza. Estas características distintivas não são achadas dentro dos Tantras não-budistas.

CONCLUSÃO

O estudo de Tantra só pode ser frutífero se a pessoa puder aplicar isto na prática, e para fazer isto tem que achar, servir e cuidadosamente seguir um mestre qualificado. Se a pessoa acha um verdadeiro professor e é adornado pelas suas bênçãos, a pessoa pode fazer progresso rápido para a meta, o Despertar perfeito para o benefício de todas as criaturas. Compondo esta conta, eu estou atento à minha própria dívida de imensurável gratidão a meus próprios mestres amáveis. Eu tenho tentado corresponder aos seus ensinos e aos outros grandes mestres de nossa linhagem sem divulgar o que é proibido para ser ensinado publicamente. Eu considerarei meus esforços terem valido a pena se alguns enganos prejudiciais foram dispersados. Todos os seres possam vir a desfrutar a verdadeira felicidade de Buddhahood! 

segunda-feira, 13 de julho de 2015

TESTANDO O EU

Procure algo que você controla completamente
Essa coisa é o eu
O corpo, segundo sua vontade, você movimenta, fala, treina
Mas não controla seu envelhecimento, nascimento, sua forma, doenças, dores...
Ele não é um eu
Sua mente certamente você controla algo, pensamentos, lembranças, aprendizados...
Mas não controla todos os sentimentos, sensações, percepções, desejos...
Não lembra tudo que quer, nem aprende tudo que quer
Nem sequer controla todos os pensamentos, imaginações, emoções...
Nem consegue parar de pensar
Ela não é um eu
Sua consciência certamente você pode controlar
Estar consciente, dirigir a atenção, a hora de dormir...
Mas você não consegue estar consciente todo o tempo nem do mesmo modo
Nem do mesmo objeto, nem do que não está ao alcance dos sentidos
Nem consegue controlar todo o conteúdo da consciência
Não pode expulsar certas lembranças, imagens, sensações...
Não consegue ficar sempre acordado, nem ficar totalmente consciente quando está sonhando
Alguma hora sua consciência falha, você dorme, apaga, fica inconsciente
E a consciência sequer capta tudo a que você dirige a atenção
Ela não é um eu
Mas algo em você dirige tudo isso
Sim, sua vontade está quase sempre sob controle, ela expressa você mesmo
Mas nem todas as suas vontades são voluntarias e escolhidas, há condicionamentos
Há condições e limites à vontade, você não pode sempre ”vontadear” à vontade
Nem controlar toda a vontade, querer e desejo o tempo todo sobre qualquer coisa que queira
Nem por um tempo curto, nem sobre um mesmo objeto por um tempo longo
Não consegue sequer manter a vontade de estar concentrado em algo longo tempo
Ela não é um eu
Agora faça o mesmo teste com qualquer parte de si mesmo
Qualquer parte da mente ou do corpo ou subparte
Ou com a consciência ou partes da consciência ou da vontade ou das emoções
Até ver que não há um eu em lugar algum

Antes eu pensava que a vontade era um eu
Pois ela aparentemente está sempre sob controle
Mas muitas vezes ela quis algo prejudicial para mim
Muitas vezes ela quis coisas que eu não quereria
E muitas vezes não consegui pará-la
Muitas vezes ela não parava de me perturbar
Houveram muitas situações onde ela foi inconveniente
Ou mesmo contrária ao que eu queria
Então qual o verdadeiro querer?
E quem realmente quer em nós?
Ou somos escravos do nosso querer?
Não conseguimos parar nossa vontade por uma hora
Nem mantê-la quieta e concentrada em um objeto por uma hora
Nem meia hora, nem dez minutos,
Sente e tente, medite e verá
Se quisermos parar tudo por dez minutos
Pensamento, mente, vontade, desejos, emoções, sensações...

Antes ainda pensei ser a consciência o verdadeiro eu
Mas então vi que nunca havia olhado para a consciência
Mas apenas para seus objetos, seu conteúdo
E ela sempre visava algo, sempre havia algum objeto
E quando não havia objeto eu estava inconsciente
Mas que eu? Quem era eu aquele intervalo de tempo
Não havia coisa alguma, eu apagava num piscar de olhos
E quando acordava tinham passa dez, quinze, vinte minutos, meia hora
Mas depois meditando, limpando e limpando, afastando tudo
Desapegado de tudo, sem aversão, não querendo nada nem coisa alguma
A consciência voltou-se sobre si mesma
Vazia e brilhante, sem conteúdo
Apenas consciente de si mesma
Então pensei “esta consciência é o que sou (?)”
E esse pensamento e dúvida rompeu todo o processo
Então percebi essa consciência pura, vazia, clara não é um eu
Por mais prazerosa ou maravilhosa que seja
Ela não está sob meu controle, ela depende de causas e condições
E ela é vazia, pronta para receber qualquer objeto, pensamento, sensação
Portanto ela é igual para todos os seres
O que difere são apenas as experiências acumuladas
Sempre mudando, sempre fora do controle total
Então somos todos o mesmo, a mesma coisa, sempre
Qualquer consciência que venha a surgir difere apenas em suas experiência
Em sua perspectiva mutável e fugaz, surgindo e mergulhando num mar de esquecimento
Não há nenhum eu constante e imutável em nenhuma dessas experiências
Nem conseguimos parar de ter experiências,
Nem a inconsciência trás conforto ou benefício algum
Pelo contrário, ela tem um gosto de morte, de perda, de tempo perdido, de supressão...

Depois eu fui para muito longe no espaço
Nas bordas distantes, aparentemente vazias, do universo
E de longe eu o vi pulsando e volvendo, em torno de si mesmo
E quando eu estava voltando eu vi que não havia corpo
Meu corpo era todo o universo
Meus olho eram os de todos os seres
Não estou dizendo que essa experiência me mostrou a realidade
Mas pude entender que somos tudo o mesmo um
E ao mesmo tempo somos múltiplos
E ao mesmo tempo não somos
Sempre em eternas voltas e voltas
Partículas de sucessivos universos
Um depois do outro e simultaneamente pulsando
Uma partícula do todo
Aquela que olha para o todo
E não podemos parar isso

Temos que treinar muito se quisermos “parar tudo” por dez minutos, vinte, cinquenta...
Pensamentos, desejos, a mente, o corpo, vontades
Mas só quando “paramos” um tempo é que vemos a realidade
Que não há nada sob nosso controle
Não há um eu em coisa alguma
Vermos a verdadeira natureza de tudo
Então um dia veremos a verdadeira pureza intata
Aquilo que não depende de condições ou de visões
Aquilo que é o que é
Imexível
Verdadeira
Imutável

Incondicionada

sexta-feira, 10 de julho de 2015

AS VOLTAS QUE O MOINHO DÁ



Não é um eu

Eu sou uma antena

Todos são antenas seletivas

Mas uma seleção condicionada

Quanto mais você se desliga da ideia de um eu

Mais você captará

Do que outras antenas captam

E do que está além das antenas

Aquilo que é tão sutil

Tão superior em vibração

Que quase nenhuma antena captou

Essa informação está tão além do comum

Que dificilmente poderá ser entendida ou aceita

Mas ela dirá tudo sobre o moer da grande maquinação

Num rolar e moer em infinitas voltas

Retornando sempre tudo e de novo e de novo

Isto soará tão libertador

Que você verá que não há nada mais a ser feito

Além de seguir seu caminho

Seu desígnio

E talvez

Com extrema habilidade

Sintonizar outras antenas

Para quem sabe

Elas n’alguma volta

Captarem a sutil verdade

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O QUE O BUDA NÃO ENSINOU EMBORA ALGUNS LHE ATRIBUAM

 “Resumi” esse interessantíssimo texto para apresentá-lo aqui com o intuito não só de desfazer confusões comuns que as pessoas têm quando começam a estudar o budismo, mas também que muitos estudiosos praticantes e mesmo monges eruditos têm e por vezes apregoam. Esse resumo é quase o texto na íntegra, baseado numa tradução encontrada na internet. A tradução tem problemas e erros que corrigi na medida do possível quando não os excluí completamente. Portanto quem quiser ler o texto na integra faz melhor pesquisando o original do autor.
Sempre existem pontos considerados temas complicados nas traduções como desejo, consciência, os corpos, sexualidade, etc., porém o texto me surpreendeu também com assuntos que eu pensava estar esclarecido por meus estudos ou palavras de autores e professores ou dicionários e glossários de pali. Espero que possa surpreender, no sentido comum da palavra, a outros estudiosos e estudantes. Por isso recomendo enfaticamente aos estudantes que também compartilhem com seus professores e conversem com eles a respeito procurando aprofundar os temas e a leitura no cânone sobre eles, pois não estou dizendo que esse autor esteja plenamente correto em cada detalhe de suas afirmações nem que tenha posições polêmicas ou erradas (e minha posição não teria a mínima importância no caso), mas que devemos realmente estudar melhor temas assim.

Sobre o autor: Christopher Titmuss, escritor e monge budista na Tailândia e Índia, ensina Meditação do Despertar e do Discernimento no mundo todo. Vive em Totnes, Devon, Inglaterra. Ele é o fundador e diretor do Dharma Facilitators Programme [Programa de Facilitadores do Dharma] e do programa Living Dharma [Dharma Vivo], um programa de aconselhamento online para praticantes do Dharma. Ele organiza retiros, participa de peregrinações (yatras) e conduz assembléias sobre o Dharma. Christopher tem ensinado em retiros anuais em Bodh Gaya, Índia, desde 1975, e conduz uma reunião anual sobre o Dharma em Sarnath desde 1999. Um instrutor do Dharma graduado no Ocidente, é autor de vários livros, como Light on Enlightenment [Luz na Iluminação], An Awakened Life [Uma Vida Desperta] e Transforming Our Terror [Transformando Nosso Terror]. Um batalhador pela paz e outras questões globais, Christopher é um membro do conselho consultivo internacional da Buddhist Peace Fellowship [Comunidade Budista da Paz]. Poeta e escritor, é co-fundador da Gaia House [Casa Gaia], um centro internacional de retiro em Devon, Inglaterra.

O QUE O BUDA NÃO ENSINOU
por: Christopher Titmuss

Conforme os textos, o Buda não ensinou:

1 – Abhidhamma.  Consistindo de sete livros, o Abhidhamma fornece uma classificação detalhada e analítica da mente e do corpo numa variedade de grupos e elementos. O Abhidhamma foi composto durante um longo período e não é a palavra do Buda, mas só uma interpretação. O Abhidhamma é uma entre um certo número de escolas budistas de interpretação dos Suttas.

2 – Aceitação. Nos 5 mil discursos do Buda não é possível encontrar uma palavra Páli para “aceitação”. Ele aponta mais para uma investigação profunda do que uma aceitação daquilo que não podemos mudar.

3 – Anicca, Dukkha e Anatta são a verdadeira realidade da existência. O Buda nunca fez tal afirmação a respeito da impermanência [anicca], da insatisfatoriedade [dukkha] e do não-eu [anatta]. Ele disse que estas são três características da existência. Se fossem a verdadeira realidade, não haveria alívio nem liberação. O Incondicionado é anatta [não-eu], mas não anicca ou dukkha.

4 – Crença em Deus. O Buda considera a crença no Deus Criador do monoteísmo como só mais uma das diversas espécies de crença religiosa. Ele a rejeitou, bem como a várias outras crenças religiosas. Na antiga Índia, o Deus criador era chamado Brahma. No entanto, o Buda apontou o caminho para permanecer com Brahma (Brahma Viharas). Brahma é um Deus entre os Deuses. A profunda e liberadora força de amor, compaixão, grata alegria e equanimidade revela uma permanência com Brahma, uma força criativa. O Buda nunca hesitou em seu foco na liberação completa, ao invés de uma experiência de união com Brahma.

5 – Estar no aqui e agora. O Buda não deu ensinamentos do tipo “estar aqui e agora”. Os especialistas budistas traduziram muito livremente “ditthe dhamme” como “aqui e agora”. “Ditthe” significa “visão” e “dhamme” refere-se ao Dharma, isto é, a todos os objetos (na mente e no mundo, passado, presente ou futuro), aos ensinamentos e à verdade. O Buda não reconheceu qualquer tipo de entidade egóica [self entity] nem adotou uma idéia de substância para o momento presente. “Ditthe dhamma” pode ainda significar “o ato de ver com atenção cuidadosa o Dharma”.

6 – Crença em Deus, um salvador, um livro sagrado, profeta ou guru. A linguagem de “Deus” é a linguagem do “Eu”. Afinal de contas, a crença em Deus e no Eu são os dois lados da mesma moeda, a primeira crença reconfirmando a segunda. Um “Deus Absoluto” não é uma grande questão nos Suttas porque ela não foi um ensinamento influente quando o Buda destacou o ver claramente, o amor desapegado (metta) e a compreensão da natureza da originação dependente. Ele não se opôs à linguagem de “Deus” (Brahma), como usada na Índia. Ele considerou a noção de Deus inteiramente dependente dos sentimentos, percepções e crenças. Não referiu-se a si mesmo como um profeta, guru, deidade ou avatar (encarnação de Deus). Não referiu-se a si mesmo como um mortal comum. Ele disse: Eu estou desperto. O Buda não apontou um sucessor antes de morrer. Ele ordenou que sua Sangha confia-se no Dharma.

7 – Causa. O Buda observou estritamente a originação dependente. Ele não adota uma causa e efeito simplista, de A para B, pensando algo como “esta técnica de meditação conduz diretamente à liberação”. O Buda referiu-se à causa (Páli, hetu) como uma condição distintiva (paccaya). Ele tendeu a colocar as duas questões juntas. Qual é a causa? Qual é a condição? (ko hetu ko paccayo) Numerosas causas ou condições para numerosos efeitos são mencionados nos Suttas. O Buda não aplica qualquer espécie de modelo simplista – “isto exclusivamente causará aquilo” – para o despertar. Ele se refere a um caminho direto (eke-yana) para o despertar.

8 – Escolha. A idéia de que somos sempre livres para fazer uma escolha não está de acordo com a experiência. Não escolhemos nascer, parar de envelhecer, de ficar doentes ou de sofrer dor. Não podemos escolher viver para sempre. Não podemos escolher ser felizes em cada momento do dia. Não podemos escolher os resultados dos eventos que realizamos em nossas vidas. Poderíamos pensar que fazemos escolhas livres e independentes somente para constatar mais tarde que a suposta livre escolha que fizemos acabou se tornando um pesadelo. Nossas supostas escolhas são limitadas. Fazemos escolhas sem conhecer as incontáveis condições que influenciam tais escolhas, ou do passado, presente, ou que poderiam surgir no futuro. Somos herdeiros de nosso karma e amarrados a nosso karma. Isso é uma escolha? O Buda enfatizou mais a intenção afetando corpo, fala e mente. Na clareza, naturalmente cultivamos ética, samadhi [poder de concentração] e sabedoria. A Sabedoria diz que neste caso não se sente haver qualquer escolha. É simplesmente algo conducente a um modo de vida liberado. Num sentido profundo, realmente não há uma escolha.

9 – Determinismo e fatalismo. O passado certamente pode determinar o processo de originação dependente. O fato de que o passado pode determinar o presente não significa que somos prisioneiros, porque o passado não é um agente que, afinal de contas, possa aprisionar-nos. Isto também significa que não há eventos que simplesmente ocorram sem causas e condições. O Buda também não ensina o fatalismo. Se o passado de modo absoluto determinasse nossa vida, então os ensinamentos das Quatro Nobres Verdades seriam irrelevantes. Seríamos um total prisioneiro de nosso passado. Novamente, não haveria liberação do passado, das forças não-resolvidas do karma. O Buda ensina a originação dependente e a liberação.

10 – Iluminação. A palavra “iluminação” não aparece em lugar algum dos textos budistas. Iluminação é um conceito Ocidental relacionado à era moderna no Ocidente. A palavra bodhi significa “despertar”. Ela vem da raiz budh - “acordar”. Soa arrogante dizer “eu estou iluminado”. Isso soa como crença em um “Eu” que diz “eu estou iluminado”, já que implica em um Eu chegando à Luz e que podemos apreciar aqueles que despertaram. Em Sete Fatores da “Iluminação” a palavra Páli é bojjhanga - bodhi, despertar e anga, aspectos de ou membros de. Uma década atrás eu escrevi um livro chamado Light on Enlightenment [Luz sobre a Iluminação]. Anos depois, um especialista Pali me fez a distinção entre despertar e iluminação. Vivendo e aprendendo!

11 – Fé. No sentido Ocidental, fé é frequentemente associada com fé religiosa, como a de que há vida após a morte ou ter fé em um livro sagrado, um profeta ou Deus. Não há palavra equivalente nos ensinamentos do Buda. Saddha, a palavra Páli traduzida como fé, ou às vezes confiança ou crença, significa sad - coração, dha - pôr ou colocar. Quando nosso coração se dirige à ação, como para explorar os ensinamentos, então saddha surge enraizada na direção do maior aprofundamento.

12 – Livre-arbítrio. Para a vontade ser livre teria que ser independente, suportada pelo Eu e não condicionada por circunstâncias interiores e exteriores. O Buda não ensina o livre-arbítrio. O Buda ensinou o caminho do meio entre livre-arbítrio e determinismo. Verdadeiramente, conhecer e perceber a originação dependente é liberar-se. Isso revela o vazio de um Eu real e das coisas reais.

13 – Escape. Os textos falam do escape do sofrimento. A palavra Pali nissarana significa saída. Nós geralmente associamos escape com evasão, com o medo que nos obriga a fugir de nós mesmos, da responsabilidade. Precisamos lembrar o suporte que o Buda deu-nos para encontrar a saída.
14 – Extinção do desejo. A palavra khaya geralmente traduzida como extinção, destruição ou dissolução, significa o “esgotamento” do desejo. No esgotamento do desejo, podemos envolver-nos em atenção sábia e ação sábia não corrompida com as preocupações do Eu e com aquilo que ele persegue.

15 – Cinco Preceitos. É extraordinariamente difícil encontrar o conjunto de Cinco Preceitos nos ensinamentos do Buda. Esta lista dos cinco aparece em uma única ocasião em um texto obscuro em todos os Suttas. O Buda nunca limitou sila (ética) a cinco preceitos. Ele falou muito mais extensamente sobre ética, sobre moralidade, do que tem feito a tradição budista. Ele falou a monges e monjas sobre a importância do controle dos sentidos, da purificação do meio de vida e do habilidoso uso de comida, vestimenta, abrigo e medicina como características igualmente importantes de sila. Foi conveniente para o rico que a tradição budista ignorasse o Buda e confinasse a ética aos cinco preceitos. O rico poderia buscar a gratificação sensual e privilégios incontidos assim que a tradição em grande parte excluiu-os como uma questão moral. O Buda ainda lista 10 caminhos de ação inábil e ação hábil, 3 de corpo, 4 de fala, 3 de mente (os 4 primeiros sendo a base dos 4 primeiros preceitos). MN 41, Saleyyaka Sutta.

16 – Interconexão. Isto implica que cada “coisa” está conectada a cada outra “coisa”. É uma ideia baseada em primeiro lugar na noção de que há alguma “coisa”. É o carro o motor? Não. Então, tire o motor. É o carro as rodas? Não. Então, tire as rodas. É o carro qualquer outra parte? Não. Então, jogue fora o resto das partes. O que restou do carro a ser conectado? Nada daquele “eu”. Há a convenção de que existe um carro. Muitas mulheres juntaram-se ao Buda no modo de vida renunciado da exploração do Dharma. Uma destas mulheres, chamada Vajira, experimentou pensamentos perturbadores na meditação.

Por quem este homem foi criado?
Onde está o Artífice do ser?
De onde o ser humano se originou?
Onde o ser humano cessa?
Então isto veio à sua mente.
Quem se dedicou a esta questão? Um ser humano ou um ser não-humano?
Ah, isso vem da tentação (Mara) para despertar medo e apreensão? Ela compreendeu.
A verdade despertou nela. Ela respondeu:
Exatamente como numa união de partes a palavra carruagem é usada.
Então, quando os agregados existem,
Há a convenção de um ser humano.
Então, foi dito ao final do discurso pela voz para despertar medo.
Vajira reconheceu-me e então a voz desapareceu dali completamente. SN. 1. pag. 230.

17 – A vida é sofrimento. Está é uma declaração incorreta da primeira nobre verdade. Novamente, não há tal declaração do Buda. Se isso fosse realidade, então não haveria escapatória. Quando o sofrimento surge na vida, é devido às condições. Quando as condições para o sofrimento não estão presentes, então o sofrimento não surge.

18 – Mantras. Os Mantras são geralmente uma prática devocional para um Eu Supremo, para um Deus ou que se utiliza da pura repetição de uma palavra para condicionar a mente a reduzir o estresse ou o pensamento excessivo. O Buda ensinou a experiência direta com a respiração, o corpo, os sentimentos, os estados da mente e o dharma ao invés de qualquer mantra como a prioridade da atenção. Mantras podem, entretanto, ser uma meditação útil para acalmar a mente.

19 – Metta é bondade amorosa. Muitos tradutores Pali definiram metta como bondade amorosa. O Pali-English Dictionary, da muito respeitada Pali Text Society, na Grã-Bretanha, usa a palavra “amor” para metta. Percepções da bondade dos monges budistas podem ter influenciado a moderna tradução de metta. O dicionário diz que metta deriva de mid - amar. Bondade amorosa é uma tradução inadequada. Metta expressa amor incondicional, amizade profunda e bondade ilimitada, aberta e sem amarras. O Buda falou a Anuruddha de liberação através do amor (metta ceto-vimutti) e novamente em Itivuttaka 27.19-21. Ananda também incentivou meditar nas características de metta para se atingir a liberação.

20 – Método e técnica para desenvolver Metta. No Metta Sutta, o Buda simplesmente revelou as qualidades, atitude e estado de ser de alguém profundamente fixado em metta. Amor sem limites é a marca de uma pessoa verdadeiramente realizada. O Buda apenas ensinou a direção de metta em todas as direções assim que se esteja desapegado. Metta, que é amor, é uma força transformadora e divina que compartilha características similares à liberação. Ambas, liberação e amor, não conhecem limites. Os métodos e técnicas modernas para desenvolver metta têm muito pouca relação com a realização de metta como uma imersão permanente. Apesar disso, a aplicação de métodos e técnicas para desenvolver metta pode ser muito proveitosa. Em seu livro clássico da tradição Theravada do século V, o Visuddhimagga (o Caminho de Purificação), o Venerável Acharya Buddhaghosa aproveitou algumas das afirmações do Buda e usou-as como frases para desenvolver metta. Ex.: “Possam todos os seres estar livres da inimizade. Possam eles viver venturosamente.”

21 – Atenção plena é o elo mais importante no Caminho Óctuplo. O Buda nunca isolou um elo acima dos outros. No Discurso sobre as Quatro Aplicações de Atenção Plena, ele disse que “atenção plena é cultivada até o ponto necessário para o conhecimento, a fim de se permanecer livre e independentemente no mundo”. Não há qualquer instrução nos ensinamentos do Buda para se estar “cônscio em cada momento”. É um empreendimento impossível. Tomar um dos aspectos do caminho e elevá-lo acima dos demais abandona a originação dependente. Isso daria caráter de Eu à atenção plena. No MLD 117, o Buda declarou que visão correta, esforço correto e plena atenção correta sustentam uma à outra enquanto fornecem uma explicação abrangente da sustentação mútua e dos significados de cada elo no Nobre Caminho Óctuplo.

22 – Prática momento a momento. O Buda não adota esse tipo de idéia. Ele defende a aplicação da plena atenção ao corpo, sensações, estado da mente e dharma. É um meio de realizar uma liberação eterna. Ele não ensina o concentrar-se na plena atenção para seu próprio benefício. Ele não admite qualquer tipo de egoidade à plena atenção. Não há palavras para “momento a momento” em qualquer dos Suttas. Desenvolvemos plena atenção juntamente com seis outros membros para atingir o despertar, a saber, investigação, energia, alegria profunda, tranquilidade, concentração meditativa e equanimidade, para chegar à verdadeira sabedoria da liberação. (MLD 118) [a sigla MLD que aparece aqui pela segunda vez vem na verdade da tradução da sigla MN (Majjhima Nikaya), 117 e 118 respectivamente, que tratam de forma bem abrangente o tema].

23 – Conhecer e perceber as coisas como elas são. Não proferido pelo Buda. Uma má tradução comum de yathabhutam-ñana-dassana. Esta célebre declaração do Buda significa literalmente “conhecer e perceber conforme o que vem a ser”. Bhuta vem da raiz bhu, vir-a-ser. Isso se refere à ação de conhecer e perceber. Não há menção de coisas nesta afirmação. Esta tradução correta é uma aproximação mais dinâmica e desafiadora do que a má tradução que sugere uma idéia fixa. “O que vem a ser” se refere à originação dependente.

24 – Nenhum Eu. O Buda permaneceu em nobre silêncio quando perguntado se havia um eu ou nenhum eu. Ele simplesmente declarou que corpo, sentimentos, percepções, formações mentais, incluindo os pensamentos, e a consciência não eram alguém e não pertenciam ao eu. Ele não ensinou o eu como sendo um veículo para a liberação da falsa percepção. Anatta literalmente significa “não-eu”; se o Buda tivesse dito “nenhum eu”, ele teria falado na-atta.

25 – A Unidade é a realidade fundamental. O Buda não negou a importância da Unidade. Ele se refere a ela na experiência de Brahma Viharas (Permanência Divina ou Presença de Deus). Ele não se refere a esta Permanência como realidade fundamental, uma vez que isso traz a noção de um Eu que se une a outro. O Buda refuta que O Todo é Um e igualmente refuta que O Todo é Muitos e aponta para a originação dependente. Em MLD 117, o Buda disse: a Unificação da mente, equipada com os outros sete elos do Caminho Óctuplo, é chamada nobre concentração correta com seus suportes e requisitos.

26 – Abrir-se ao desejo. O desejo (tanha), tanto quanto a ânsia e a sede que se seguem, conduz à insatisfatoriedade e ao sofrimento. O Buda nunca endossou uma idéia como a de se abrir ao desejo. O desejo resulta do contato, da identificação com sensações particulares que condicionam o desejo e alimentam o apego. A idéia de que podemos obter aquilo que desejamos sem vínculo com os resultados compromete os ensinamentos do Buda sobre a insatisfatioriedade do desejo. Abrir-se ao desejo emite uma mensagem aos consumidores budistas para que estejam abertos a seus desejos desde que, por meio deles, sigam sem ânsia. A paz temporária da mente que experimentamos quando somos bem-sucedidos em conseguir o que queremos é devida à suspensão temporária do desejo em nossa mente. Abrir-se ao desejo dilui os ensinamentos do Buda para adequá-los à ideologia Ocidental de ir atrás do que queremos. O Buda usa outras palavras para “desejo”, como dhamma-canda, zelo pelo dharma, quando referindo-se à intenção, práticas e ações necessárias para o despertar e a liberação.

27 – A Paixão (raga) deve ser erradicada. O Buda incentivou a paixão como Dhamma rage (Paixão pelo Dharma). Não devemos confundir raga com desejo. Ele referiu-se a abandonar qualquer raga que dá cor e distorce os objetos. A palavra raga significa dar cor ou tingir.

28 – Paramitas (Perfeições). O Buda não ensina as 10 Perfeições. Elas não são encontradas em nenhum lugar dos Suttas. Ele refutou a crença de que podemos alcançar uma perfeição da mente, não importa o quanto cultivemos dana (generosidade), ética, renúncia, sabedoria, energia, paciência, honradez, decisão, metta (amor, bondade amorosa) e equanimidade. As 10 Perfeições são encontradas nos comentários do Theravada e Seis Perfeições são encontradas na tradição Tibetana.
29 – Salvação pessoal. Salvação pessoal importa para aqueles que acreditam em um Eu que deva ser salvo.

30 – Renascimento. Não há nenhuma palavra nos ensinamentos do Buda que se traduza literalmente como renascimento. Esta noção parece vir da palavra Páli punnabbhava, que literalmente significa “novo vir-a-ser” [rebecoming]. No Kalama Sutta, um dos mais queridos de todos os discursos sobre a investigação, o Buda presume uma ideia provisória sobre o “novo vir-a-ser” ao invés de referir-se a isso como um fato indubitável. Há o “novo vir-a-ser” devido a estar-se amarrado à força do desejo.

31 – Reencarnação.
 O Buda refutou a crença numa alma, Eu [self] ou essência que vai de uma vida à outra. Nossa meditação não pode mostrar algo interno permanente a deixar o corpo ao chegar a morte.

32 – Visão correta. A palavra Pali para “correto”, no caso de “visão correta”, “intenção correta” e nos seis elos restantes no Nobre Caminho Óctuplo, é Samma. Samma significa “conducente” - conducente ao completo despertar. Uma visão conducente revela uma profundidade de compreensão do que é a liberação. Samma não tem qualquer implicação de um mandamento moral, de certo ou errado. Miccha Magga significa um Caminho Não-conducente que se segue na vida.

33 – Samatha (tranquilidade) e vipassana (discernimento) são práticas separadas uma da outra.
 O Buda nunca refere-se em nenhum lugar a samatha e vipassana como técnicas. Ele ensinou samatha-vipassana como qualidades de experiência e percepções essenciais para a compreensão do Dharma. Ele disse que algumas pessoas são desenvolvidas em ambas; algumas são desenvolvidas em tranquilidade; algumas são desenvolvidas em discernimento e algumas permanecem não-desenvolvidas em ambas. O Buda nunca disse que samatha (a consciência plena da respiração) é uma técnica e que Vipassana ou meditação do discernimento (consciência do corpo ou pensamentos que surgem) é outra técnica. Diferentes tradições budistas separaram uma da outra.

34 – A visão da impermanência é tudo o que importa. O Buda nunca tomou a exploração da impermanência isoladamente do resto do corpo de seus ensinamentos. Quanto à impermanência, incentivou uma perspectiva quíntupla – vemos a originação, o desvanecimento (de eventos, fenômenos, experiências, relacionamentos, etc), a satisfação, o risco e o caminho para fora do mundo da impermanência. A experiência de impermanência (anicca – literalmente “não-permanente”) está disponível como um passo em direção ao desapego.

35 – Partícula subatômica (kalapas). O Buda não ensinou o desenvolvimento do poder de concentração (samadhi) na meditação a fim de experimentar partículas subatômicas. A palavra kalapas não aparece em nenhum lugar dos suttas. O Buda não sustentou tais coisas, como visões materialistas ou não-materialistas.

36 – A Verdade está dentro de você. Nunca declarado pelo Buda. Ele disse que preservamos a verdade quando não fazemos reinvindicações de a possuirmos. A verdade não está dentro, nem dentro de outro, nem no meio. Nós não podemos encontrar uma coisa chamada Verdade interior. A verdade é aquilo que nos desperta (bodhi-sacca), a verdade da sabedoria (sacca-ñana). Não é uma entidade substancial que alguns têm e outros não têm.

37 – Vipassana como uma técnica. Não há nada nos ensinamentos do Buda indicando que Vipassana seja uma técnica. A palavra simplesmente significa “discernimento” [insight, seria melhor traduzido como compreensão]. Um momento de discernimento é um momento de vipassana que pode surgir em qualquer lugar a qualquer momento. A tranquilidade sustenta o discernimento e o discernimento sustenta a tranquilidade. Calma e discernimento indicam liberação.

38 – Eu Real. Diversos professores budistas mais graduados inevitavelmente usam em suas conferências e escritos o conceito de Eu Real. Não há nada que valide um Eu Real. Quem ou o que internamente determina o que é esse meu Eu Real e o que não é esse meu Eu Real?

39 – Dieta vegetariana. O Buda estava mais interessado no que saía de nossas bocas, do que naquilo que entrava nelas. Ele não se opôs que os buscadores renunciados recebessem carne para comer, desde que animais não fossem mortos por eles. (MLD 55) [MN 55]. Na Índia vegetariana todos os dias andarilhos, iogues, sadhus e ascetas muito, muito raramente tocam carne. Os hindus tratam as vacas na Índia com reverência sagrada por seu modo tranquilo e seus laticínios. É improvável que os hindus oferecessem à Sangha desabrigada do Buda qualquer coisa com aspecto de carne – isto é, animais, aves ou peixe. O Buda necessitaria revisar radicalmente sua visão hoje a respeito da ingestão de carne. Há crueldade para com os animais em nossos grandes matadouros. Animais são abastecidos com uma dieta prejudicial. Vacas, ovelhas, porcos e aves consomem uma enorme quantidade de comida, quer confinados em fábricas animais, quer ocupando terras valiosas que poderiam fornecer grãos, frutas e vegetais. Milhões de budistas entoam para salvar todos os seres sencientes e dispensar bondade amorosa aos animais, aves e peixes, mas continuam a comê-los, geralmente no dia-a-dia.

40 – Meditações com visualização. O Buda forneceu práticas diretas para vermos e conhecermos por nossas próprias experiências o que vem a ser, ao invés de aplicar sobre a experiência visual figuras, imagens ou arquétipos mentais. Do mesmo modo que com os métodos para metta, o uso de práticas com mantras, visualização, podem, contudo, ser uma forma muito benéfica de meditação.

41 – Nós criamos nossa própria realidade. O Buda nunca fez essa declaração. Você vê essa frase atribuída ao Buda em posters e calendários. É uma idéia bizarra. Pode a mente criar o céu, a terra, a natureza e incontáveis seres sencientes? A crença de que criamos nossa própria realidade é uma projeção primitiva. Não podemos criar nem mesmo nosso próprio sofrimento. A noção de “eu” e “meu” simplesmente surge com condições que têm um suporte. As condições da originação dependente dão forma à realidade. A mente não pode criá-la. O Eu substituiu Deus, o Criador, pelo Eu, o Criador. É outra projeção. Isso vem da má tradução do primeiro verso do Dhammapada. O buda disse que “todos os dharmas são fabricados pela mente”. Isso significa que a mente constrói o Eu pelo que é percebido. A mente concede substância, essência, alma ou egoidade àquilo que é originação dependente.

42 – Atenção sábia. Uma tradução simples. As palavras Páli são yoniso-manasikara. Yoni é o útero da mãe. Manas é mente. Kara é ação. É a ação da mente que emerge da profundeza de nosso ser. Yoni é usada metaforicamente. Manas é mente. Kara é ação. Yoniso-manasikara indica o estabelecimento da mente.